sábado, 31 de outubro de 2015

A Guerra Fria e a América Latina

       A Guerra Fria, apesar de não ter apresenta um conflito militar direto entre EUA e União soviética, apresentou consequência consideráveis para os dois países envolvidos e também para o restante do mundo. Logo, a América Latina não ficou excluída deste processo, sendo que os efeitos do conflito foram sentido também aqui. Por sinal, pode-se afirmar que o continente foi um importante local onde o interesse e a influência política se manifestaram: era preciso demonstrar na América a força e o poder de seu regime, independente de este ser comunista ou capitalista.      Assim, é impossível falar sobre os desdobramentos da Guerra Fria sem frisar o óbvio repartimento do mundo em dois blocos distintos: o capitalista, liderado pelos EUA, e o comunista, liderado pela União Soviética.                                                                             
         O primeiro ponto a ser destacado é a criação do plano Marshall criado pelo governo dos EUA, com o objetivo de arquitetar alianças contra o regime comunista. Assim, os norte-americanos ajudavam financeiramente os países capitalistas da Europa que, após a Segunda Guerra Mundial, estavam seriamente debilitados. Em seguida, e não menos importante, é preciso analisar a corrida nuclear e armamentista; Nos EUA, assim como na União Soviética, a Guerra Fria incentivou como nunca a pesquisa e o desenvolvimento de novas armas; A conquista e o controle dos agente nucleares para a produção de armas colocou o mundo em constante medo: a qualquer momento poderia ocorrer uma hecatombe nuclear que destruiria o planeta.                        
      A corrida espacial é outro importante ponto que irá marcar a Guerra Fria. A incessante busca pela conquista do espaço leva a um gigantesco avanço em diversos setores, como, por exemplo, a construção de peças de naves e foguetes que eram lançados para fora do planeta; O confronto ideológico entre as duas superpotências levou o homem à lua; Conquistar o espaço era uma questão de demonstração de poder e de força.        

       Na América Latina, a Guerra Fria mostrou-se de maneira subjetiva. Apesar de não ocorrerem conflitos armados, os países americanos foram alvos do jogo político das duas superpotências; Era preciso expandir sempre mais a ideologia escolhida, e neste sentido a América Latina serviu como “celeiro” para a implantação das ideias e do modo de viver norte-americano. O continente foi também palco da famosa crise dos mísseis, em cuba: em 1962 o país foi palco de um dos momentos mais tensos da Guerra Fria, quando EUA e União Soviética estiveram mais próximos do que nunca de praticarem um conflito nuclear direto.                                                                    
          Após a Segunda Guerra, o Brasil colocou-se no bloco capitalista. Porém, após 1961, com a política independente desenvolvida por Jânio Quadros, o medo do avanço comunista tornou-se constante. Assim, o presidente americano Richard Nixon é uma das figuras que mais irá marcas esta relação norte-americana com os irmãos latino, mais precisamente com o Brasil: encontrando-se com o presidente brasileiro Emílio Garrastazu Médici, no auge da Guerra Fria, elaborou estratégia para conter o avanço do regime oposto ao seu; Apesar de o governo norte-americano não concordar com o modelo de desenvolvimento proposto pelo governo militar no Brasil, ambos os países tinham o interesse de controlar o avanço comunista no continente. Em Cuba, a ameaça comunista levou os EUA a derrubarem um presidente, apesar de anos mais tarde Fidel Castro ter assumido o poder e instaurado o regime comunista.                
        Na América Latina, em muitos países, os EUA incentivaram e conduziram a instalação de ditaduras civis-militares.    Em 1959 a Revolução Cubana cravou um importante ponto comunista na América; Era preciso evitar que “outras Cubas” surgissem no continente. Diante disto, os EUA precisavam reforçar ainda mais suas áreas de atuação e garantir a soberania do regime capitalista nos demais países da América, o que se verifica no apoio aos regimes ditatoriais sul-americanos, como Brasil, Chile e Argentina.                                                                                                       
       A Guerra Fria pode ser entendida sucintamente como o mundo polarizado. A chance de um conflito direto entre as superpotências era extremamente evitado, visto que se isto acontecesse provavelmente seria fatal. Considerando que tratava-se de um conflito bastante ideológico, é fácil perceber que os adversários desejavam aumentar suas zonas de influência; Neste sentido, a América Latina foi palco de disputa entre americanos e soviéticos, ambos querendo implantar seu sistema econômico no continente americano.

Os Regimes Oligárquicos na América Latina

        Os regimes oligárquicos são, claramente, um sistema de dominação das classes aristocráticas. Em uma época que a posse da terra era de vital importante, é lógico pensarmos que aqueles que a possuíam detinham grande poder político e de dominação sobre os demais cidadãos.           
            Economicamente falando, os regimes oligárquicos da América Latina são marcados pela grande dependência do capital estrangeiro. Com a integração dos países latino-americanos na economia mundial, devido a divisão internacional do trabalho, cada país se especializou na produção de determinado produto. Nesta divisão, podemos destacar três grupos de produtos: agrícolas, composto pela Argentina e pelo Uruguai; Agrícolas tropical, formado por Brasil, Colômbia, Equador, América Central e Caribe; Minerais, o qual faziam parte México, Chile, Peru e Bolívia. Destaque-se, ainda, que México e Venezuela tivessem uma produção variada. Independente da produção, agrícola ou mineral, é importante observar que a economia latino-americana é marcada pela produção de alimentos e de matérias primas baratas para o mercado externo.                                               
          A entrada de capital estrangeiro causou consequências diferentes nos diversos países da América. Em países de produção agrícola, como a Argentina, beneficiou ao conjunto da população, conforme destaca Dabene (2003). Já nos países agrícolas tropicais, como é o caso do Brasil, o dinheiro vindo de fora serviu para consolidar a estrutura de produção já existente, fazendo que o capital permanecesse, em grande parte, nas mãos dos nacionais. Nos países de economia mineradora, por sua vez, o dinheiro produzido fico, majoritariamente, com estrangeiros. A economia latino americana no período oligárquico pode ser sintetizada assim: “os regimes políticos deviam dedicar-se a criar condições favoráveis ao crescimento econômico, o que significa em primeiro lugar, a construção e infraestrutura como a ferroviária.Priorizou-se a exportação de matéria prima e a importação de produtos manufaturados” (DABENE,2003, p. 24)              
          No campo social, a época oligárquica é marcada por um grande crescimento populacional, principalmente os países de  clima tropical, devido, principalmente, a imigração europeia. Tal migração teve importante consequências, provocando em países como Argentina, Brasil, Chile e Uruguai, a presença de uma população europeia homogênea. Acentue-se, ainda, a renovação das fronteiras, a revalorização de novos espaços e o nascimento de novas cidades. Além disso, sem qualificação, os europeus que vieram para a América adensaram uma nova classe trabalhadora, visto que vieram para satisfazer as necessidades de uma agricultura de exportação, apesar de, etnicamente, estarem próximos da classes dominantes. Em suma, os estrangeiros foram os agentes de grande parte da mão de obra existe na América Latina.                                                                 
        No âmbito político, o regime oligárquico é marcado pela eliminação, ou quando não possível, incorporação dos caudilhos em um sistema de colaboração com poder central. A ideologia dominante era a do positivismo, de Augusto Comte. Assim, a política deveria ser considerada como uma ciência experimental. 
    Defendendo que era papel do Estado buscar condições que propiciassem a modernização da sociedade, os positivistas deixavam claro a preferência por regimes políticos tecnocráticos ou autoritários. Destaque-se, ainda que não se pode entender a política oligárquica como uma unidade em toda a América: numerosos regimes trabalharam a favor de um regime democrático, apesar de, na maioria dos casos, as oligarquias se limitassem a explorar o clientelismo.

O Populismo no Brasil



            O político populista é aquele que estabelece laços emocionais, e muitas vezes não racionais, com o povo. Muitas vezes, este tem contato direto com o povo, não necessitando, para isto, de um intermediário. Como faz ações que agradam as grandes massas, geralmente o líder populista é adorado pela população de baixa renda. No Brasil, esta característica manifesta-se fortemente na figura de Getúlio Vargas, o presidente da república que ficou conhecido como o Pai dos Pobres.                                                                  O governo de Vargas é marcado por sua liderança carismática e a dedicação na implantação das leis trabalhistas, que melhoram sensivelmente as condições de trabalho dos operários brasileiros. Por meio da propaganda, Vargas construiu uma imagem afetuosa e protetora para a nação, sobretudo em seus discursos inflamados no dia 1° de maio, dia do trabalho. Destaca-se, também, o aumento de 100 % dado ao salário mínimo, concedido pelo ministro do Trabalho João Goulart. Getúlio lutou contra as oligarquias, manteve o povo controlado e consolidou a indústria. Em época de mudanças políticas, em que o poder estava passando das oligarquias aristocráticas para a burguesia industrial, Vargas soube conciliar o interesse das massas com o daqueles que poderiam apoiá-lo financeiramente, em uma clara atitude populista.                       
      Considerando que o conceito que utilizarei para  populismo é: termo que denomina um tipo de governo onde os governantes procuram realizar favores ao povo, ou seja, procuram integrar socialmente as classes menos favorecidas, a fim de conquistar a simpatia das mesmas e assim, poderem exercer um autoritarismo “concedido”. Em suma, trata-se de uma política de conciliação de interesses, fundamental para manter regimes onde o poder está nas mãos de poucos. O poder, que antes estava retido unicamente nas mãos das classes dominantes, continua em grande parte com estas, mas o povo passa a ter, ou pelo menos pensa em ter, paulatinamente, uma participação na vida política.Para alcançar a simpatia do povo,o líder populista concede benefícios como empregos e aposentadorias para a população, a fim de conquistar a confiança da mesma, percebe-se que o governo Vargas enquadra-se perfeitamente. Porém, é preciso notar que o presidente destitui líderes trabalhistas sindicais para colocar pessoas de seu próprio interesse, o que é contrário ao interesse das grandes massas. A legislação trabalhista, que é uma luta antiga e que foi apropriada pelos políticos populistas, não pode ser interpretada unicamente como uma concessão benéfica, mas também como um meio para controlar as massas trabalhistas. Em suma, a visão clássica de um populismo que existe para atender unicamente as vontades do povo desfaz-se com o governo Vargas; Analisando-o, é possível ver a típica política conciliadora de interesses que é o calcanhar de Aquiles dos regimes populistas.

A Revolução Cubana


            A Revolução Cubana 1959 deve ser entendida dentro de um processo que tem suas origens no período de independência do país. É importante Considerar que Cuba foi a última colônia da América Latina a obter a independência da Espanha, em 1898, após ocorrerem duas guerras.  independência cubana conta com forte apoio norte americano, o que vai consolidar-se por meio da emenda Platt, que estabelecerá as bases das relações amigáveis entre os dois países. Logo, a presença dos EUA levará o processo de independência de Cuba a apresentar peculiaridades com relação aos demais países latino-americanos; Para muitos revolucionários, a atuação norte americana acabou com antigos sonhos de liberdade e soberania que eram as bases do movimento, conforme Ayerbe (2004).Assim, percebe-se semelhança entre dois processos revolucionários: o primeiro, de independência do país, e o segundo, a Revolução de 1959.

[...]O processo revolucionário que derruba o regime de Fulgêncio Batista retoma a trajetória dos movimentos do século XIX, vinculando a libertação nacional e social aos desafios da guerra fria: a luta contra uma ditadura que favorece os interesses norte-americanos, na direção de uma sociedade mais justa e igualitária. (AYERBE, 2004, p. 26).

        Em 1952, o golpe militar aplicado por Fulgencio Batista acabou com um período de oito anos de de democracia, fechando, assim, o caminho da política institucional para lideranças que acreditavam na legitimidade do sistema como premissa para o encaminhamento das mudanças econômicas e sociais que Cuba precisava. Dentre estas lideranças destacava-se Fidel Castro, integrante do partido ortodoxo, criado em 1947. Castro nasceu em 1923, filho de um rico fazendeiro. Sempre ligado a política, liderou alguns movimentos insurrecionais na década de 1950, sem obter sucesso. Estas tentativas levarão o líder insurreicionista a prisão, recebendo a anistia em 15 de maio de 1955. Esta libertação deveu-se, além da pressão popular, a nova situação política gerada por Fulgencio Batista, que convocara eleições para 1954 e concorreria como candidato único após a desistência dos oposicionistas. Livre, Fidel Castro parte para o México onde organiza um grupo de combatentes com o objetivo de retornar a Cuba e promover uma nova insurreição. Durante este tempo, mantem-se em contato com a resistência que existia clandestinamente em Cuba.

A força expedicionária, composta por 82 homens, 78 cubanos, uma argentino, um italiano, um mexicano e um dominicano, embarcará em 25 de novembro de 1956 a bordo do Granma, barco de transporte de turistas reformado, com capacidade para 25 pessoas(AYERBE, 2004, p.34).       
                              
         Estando os exércitos de Fulgencio Batista de sobreaviso, estes executaram um ataque devastador, sendo que apenas doze homens sobreviveram. Dos sobreviventes que se dispersam, surgem grupos guerrilheiros nos campos, que procurarão integrar justamente a população mais pobre do pais. Em junho de 1957, estes grupos guerrilheiros irão se dividir em três colunas comandadas sob Fidel Castro, Raul Castro e Ernesto “Che” Guevara, de nacionalidade argentina. Com o fortalecimento do movimento revolucionário no campo, o clima nas cidades começa a também se agitar: em 13 de março o Diretório Revolucionário e os setores vinculados ao ex-presidente Socarrás promovem o assalto ao Palácio Presidencial, residência oficial do presidente Fulgencio Batista. A ação, porém, fracassou, sendo que os exércitos presidenciais eliminaram 35 dos 50 combatentes revolucionários.    

           Neste cenário de aumento da ala oposicionista, tornar-se público, em junho de 1957, o “Manifesto da Sierra Maestra”, documento no qual Fidel Castro apresenta um programa de unificação das oposições contra o regime de Batista. Assim, o manifesto exigia a recusa do presidente, a convocação de um governo provisório e de eleições gerais, a promoção de mudanças econômicas no âmbito da reforma agrária, a aceleração da industrialização e a geração de vagas de empregos. Em 9 de abril de 1958 organizou-se uma greve geral nas cidades que não obteve o sucesso esperado. Com o fracasso da paralisação, Batista lança uma ofensiva militar contra os revolucionários, com uma tropa de mais de dez mil soldados. Após 75 dias e de ter sofrido mais de mil baixas, o exército presidencial se vê obrigado a recuar. A partir daí, começa a se configurar a vitória dos revolucionários.Em 20 de julho todos os grupos que apoiavam os revolucionário reuniram-se em Caracas, capital da Venezuela, e assinam o Pacto de Caracas, documento que solicita que os Estados Unidos suspendam a ajuda ao governo de Batista, principalmente no campo militar. Neste momento, as forças de guerrilha incorporam também elementos de outras organizações, como o Diretório Revolucionário e o Partido Socialista Popular. A partir de agosto, desencadeia-se a ofensiva fina: em 31 de dezembro, Batista abandona Cuba e os revolucionários conquistam o poder. 
     A história da Revolução Cubana, assim como de muitos outros processos revolucionários latino-americanos, é marcado por lutas sangrentas e longas. De maneira geral, percebe-se o desejo de maior participação do povo nas decisões políticas e um desejo de maior igualdade entre os cidadãos.














A Crise Econômica de 1929

A Crise econômica de 1929 acabou com as certezas econômicas, sociais e a falsa prosperidade que se pensava haver na década de 1920, os conhecidos anos loucos. O consumismo desenfreado era visto como algo necessário para se alcançar a felicidade, levando a população a crer que a recessão, os problemas imprevisíveis, o desemprego e o infortúnio social estivessem distantes e nunca mais pudessem voltar a aparecer.     Por trás de todo o cenário de prosperidade, porém, haviam sérios problemas. A riqueza econômica e o poder político ainda estavam distribuídos de forma bastante desigual. Além disto, o poder de compra da população estava bastante reduzido.
No fim da década, um salário de 1,8 mil dólares ao ano foi considerado necessário para manter um padrão de vida minimamente decente, mas o salário médio do trabalhador americano era do patamar de 1,5 mil dólares. Somente com o trabalho assalariado de vários de seus membros, uma família da classe trabalhadora poderia sobreviver.( KARNAL et. Al., 2007, p. 200)
            O que torna a crise americano peculiar é que, embora países capitalistas tenham sofrido depressões no passado, nenhuma delas foi tão grave, longa e mundial quanto a crise de 1929. Para analistas como Alan Brinkley, a causas da depressão podem ser resumidas em três eixos principais:
a)A economia americana da década de 1920 era pouco diversificada, estando o crescimento econômico condicionado a poucas industrias, como a automobilística e a de construção civil.

b) A distribuição desigual da renda gerava um mercado consumidor bastante limitado. 

c) Muitos bancos eram dependentes dos empréstimos de grandes fazendeiros, negociantes e países estrangeiros. No momento em que a crise agravou-se, os devedores não foram capazes de pagar suas dívidas, gerando uma “bola de neve” de falências.    

As consequências da crise de 1929 são as piores possíveis:  diminuição de 60 % da renda familiar nas pequenas propriedade no período entre 1929 e 1932, sendo que um terço dos proprietários perderam suas terras. Muitas pessoas migraram para as cidades e empregaram-se nos agronegócios, onde receberam salários baixíssimos. Com isto, os desempregados, principalmente aqueles que eram trabalhadores rurais, vagavam pelas cidades em busca de emprego e alimentação. Nas cidades industrias, as condições tornaram-se de extrema miséria, com muitos desempregados andando maltrapilhos pelas ruas. As mulheres negras, a grande maioria empregadas domésticas, perderam seus empregos, visto que já não eram mais possível para seus patrões   mantê-las. De maneira geral, todos os setores da sociedade americana foram prejudicadas. Considerando os EUA como um dos grandes centros da economia capitalista mundial, é fácil concluir que a crise internacionalizou-se rapidamente, o que provoca uma recessão econômica mundial.

sábado, 24 de outubro de 2015

Os Estados Unidos e a ditadura civil-militar

Os Estados Unidos e o Golpe Militar de 1964
            Passados 50 anos do golpe militar que destituiu o presidente João Goulart e instalou a ditadura militar no Brasil, os debates historiográficos sobre os diversos pontos que construíram o evento nunca foram tão fortes. Uma das questões debatidas pela historiografia, e que veio a tona novamente nesta efeméride vivida no ano de 2014, diz respeito a participação dos Estados Unidos no golpe militar de março de 1964. Considerando a vasta produção sobre o assunto, irei deter-me a análisar três escritos em específico: os artigos Reinventando a história: Lincoln Gordon e suas múltiplas versões de 1964, de James Green e Abgail Jones, e Os Estados Unidos diante do Brasil e da Argentina: os golpes militares da década de 1960, de Mario Raporport e Rubén Laufer. O terceiro texto a ser analisado consiste em uma entrevista de Carlos Fico, doutor em História pela Universidade de São Paulo, concedida ao Instituto Humanitas da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, de São Leopoldo-RS. Na entrevista, Fico também dá sua opinião sobre a participação norte-americana nos eventos que culminariam no golpe militar de março de 1964.     Antes de realizar qualquer comparação entre as produções escritas é necessário, primeiramente, fazer uma rápida apresentação de cada uma delas. James Green e Abgail Jones, em Reinventando a história: Lincoln Gordon e suas múltiplas versões de 1964, organizam seu artigo com base nos discursos de Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos no Brasil na década de 1960, ressaltando sempre o apoio do embaixador ao golpe militar e como o discurso de Gordon tornou-se incoerente ao longo dos anos, sempre que o embaixador tentava justificar seu apoio ao golpe e posterior ditadura militar que deu-se no Brasil. Em suma, os autores procuram, em um primeiro momento, verificar a percepção de Gordon sobre os fatos na época em que eles ocorreram, e, posteriormente, como a memória do embaixador modificou esta percepção ao longo dos anos, que o objetivo de criar um legado que fosse agradável a pessoa de Gordon. Por meio da análise dos discursos e de outros relatos escritos pelo embaixador aos seus comandantes norte-americanos, os autores evidenciam a participação dos Estados Unidos no golpe militar de Março de 1964. No artigo Os Estados Unidos diante do Brasil e da Argentina: os golpes militares da década de 1960, Mario Rapoport e Rubén Laufer também salientam a participação norte-americana no planejamento do golpe militar no Brasil, como também naqueles que aconteceram em outros países da América Latina, como é o caso de Argentina e Chile. Primeiramente, contextualizam o golpe militar na conjuntura da Guerra Fria, enfatizando o interesse dos Estados Unidos na América Latina, especialmente após o triunfo da Revolução Cubana de 1959. Nas palavras dos autores, seria inadmissível para os norte-americanos verem o Brasil, dada sua grande extensão territorial e sua relativa importância econômica, se tornar uma "nova Cuba". Assim sendo, grande parte do texto está construído com base nos diferentes meios que os norte-americanos utilizam para auxiliar na construção do golpe militar de 1964, que vão desde o apoio político e ideológico até um possível apoio militar em uma possível guerra civil. Na entrevista cedida ao Instituto Humanista da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Carlos Fico expõe seu pensamento sobre a participação norte-americana no golpe militar no Brasil. Convergindo com os autores dos dois artigos já citados, para Fico a participação norte-americana nos antecedentes e consolidação do golpe é inquestionável, dando enorme ênfase para o embaixador norte-americano no Brasil, Lincoln Gordon, como personagem que convenceu o presidente dos Estados Unidos a época do ocorrido, John Kennedy, a realizar intervenções com o objetivo de desestruturar o governo "esquerdista" de João Goulart.Em todos os escritos analisados, a participação norte-americana no planejamento do golpe militar de 1964 é inquestionável. Green e Jones fazem uso dos relatos de Gordon para demonstrar como o embaixador norte-americano modificou seu discurso ao longo dos anos; Apesar deste nunca ter afirmado a participação norte-americana no golpe, após o aparecimento dos documentos sobre a operação Brother Sam, Gordon deixou de negar veementemente a participação norte-americana no golpe:
Ele passou a usar uma linguagem mais matizada e focada em pontos específicos do plano de contingência, como fez em 1976, quando declarou que a CIA não desempenhou nenhum papel no golpe, "dirigindo-o ou financiando-o". Ele nunca esclareceu essa ambiguidade. (GREEN; JONES. 2009, p. 81).
            Para os autores, Gordon apoiou o golpe militar de 1964. Após a longa ditadura que se seguiu, procurou justificar seu posicionamento de diferentes maneiras. Em suma: "a realidade, o que mudou, ao longo dos anos, foram os argumentos utilizados por Gordon como desculpa para legitimar sua visão anticomunista e sua política golpista. GREEN; JONES. 2009, p. 81)."  Rapoport e Laufer, assim como Green e Jones, também apontam para a participação norte-americana no golpe militar de 1964.
ob a pressão dos setores conservadores internos,dos interesses norte-americanos afetados pelas expropriações e dos “duros” do Departamento de Estado preocupados com o rumo da política externa brasileira,os Estados Unidos – através da CIA e da própria Embaixada – modificariam posição vacilante, passando a colaborar ativamente com grupos anti-Goulart como IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) e o IBAD (Instituto Brasileiro para a Ação Democrática) , financiando seu equipamento e propaganda.   ( LAUFER; RAPOPORT, 2000, p. 74).

 Em Os Estados Unidos diante do Brasil e da Argentina: os golpes militares da década de 1960, a ênfase maior está na intervenção política que os Estados Unidos vinham realizando no Brasil desde as eleições de 1962. A Figura do embaixador Gordon também é destacada como figura importante no processo que culminaria no golpe militar. Gordon seria o responsável por enviar ao governo norte-americano notícias sobre o governo Goulart e como este estaria se preparando para entregar o país nas mãos dos comunistas.
O embaixador Gordon admitiria mais tarde que os Estados Unidos investiram aproximadamente cinco milhões de dólares na missão de torcer a vontade eleitoral de parte significativa da cidadania brasileira (outras fontes calculam entre 12 e 20milhões de dólares), em sua maior parte, proporcionados pela CIA e canalizados através do First National Bank of New York e do Royal Bank of Canadá ( LAUFER; RAPOPORT, 2000, p. 76).

            O historiador Carlos Fico Corrobora com as informações apresentadas pelos autores analisados anteriormente. Para ele, a democracia brasileira foi derrubada pela "democracia norte-americana". Na visão de Fico, o governo de Castelo Branco foi o auge do alinhamento entre o Brasil e os Estados Unidos, o que se reflete também na produção de Green e Jones, que ressaltam o incondicional apoio de Gordon ao primeiro presidente do regime militar. Como ponto em comum, destaca-se o "arrependimento”, sempre demonstrado de maneira muito tímida, de parte do governo norte-americano após que as torturas tornaram-se uma constante no regime militar brasileiro. A história do envolvimento dos Estados Unidos na preparação do regime militar brasileiro ainda é bastante nebulosa, visto os documentos existentes e que ainda não foram revelados. Os poucos registros que vieram a público, na visão dos autores analisados, indicam uma inegável participação norte-americana. Os debates historiográficos sobre o assunto, logicamente, não se limitam aos autores analisados.

Povos indígenas do Rio Grande do Sul



OS POVOS INDÍGENAS PAMPEANOS: CHARRUAS E MINUANOS
            Denomina-se genericamente de povos pampeanos os grupos indígenas que habitavam a atual região do Uruguai, parte do Pampa e do Chaco argentino e do estado do Rio Grande de Sul. Com uma organização caçadora e coletora, possuíam como língua dominante o idioma Quíchua, possuindo um vínculo de identidade entre si. Destacam-se, entre os índios pampeanos, os grupos Charrua e Minuano.Os povos pampeanos descendem dos mais antigos grupos de caçadores e coletores que se instalaram na região do pampa platino durante a última grande glaciação. Apesar das poucas informações existentes sobre os Charrua e os Minuano, a cultura material encontrada sugere que suas técnicas de lascamento de pedra eram consideradas bastante avançadas, elaborando pontas de flechas com retoques bastante bem realizados. Em muitas regiões, estes grupos passaram a se instalar em pequenas elevações, conhecidas como cerritos, locais onde deixaram marcas de suas atividades diárias, como pesca, cerâmica e enterros rituais.
É importante lembrar ao leitor que a estes grupos Charrua e Minuano faz-se a correlação etnográfica com os “Cerritos de los índios”, montículos de terra bastante comuns nas regiões do litoral e pampa do território já mencionado. Estes montículos de terra são geralmente tratados pelos arqueólogos como áreas de moradia, cemitérios, demarcadores de fronteiras sociais, monumentos de memória e identidade e marcos na paisagem, construídos pelos grupos ameríndios a partir de aproximadamente 5000 anos atrás até, pelo menos, 200 anos, quando então, dadas às transformações sociais e culturais vinculadas ao processo colonizatório, pararam de ser construídos (MILHEIRA, 2008, p.179).
            Ainda, sobre os Cerritos, temos a seguinte definição:
Em relação aos Cerritos, pode-se dizer que estas são estruturas arqueológicas monticulares constituídas predominantemente com terra e diferentes tipos de vestígios de cultura material: arqueofauna, instrumentos líticos e cerâmicos ,estruturas de fogueiras e enterramentos humanos. Os sítios arqueológicos com Cerritos encontram-se no Sul da América do Sul, distribuídos nas porções Leste e Norte do Uruguai, Sul do Brasil (Rio Grande do Sul) e na porção Nordeste da Argentina. (NAUE apud GARCIA; MILDER, 2012,p. 37).

Apesar de serem seguidamente citados de maneira conjunta, Charruas e Minuanos foram dois grupos distintos. Conforme Becker (2002). Como já destacado anteriormente, ambos os povos pertencem ao mesmo grupo linguístico, Quíchua, mas não se sabe se falavam línguas ou apenas dialetos distintos. Devido à falta de conhecimento histórico, algumas vezes são mencionados como um único grupo. De acordo com Garcia e Milder (2012) os Charrua e os Minuano foram distintos em aspectos físico, social e cultural e quanto aos seus territórios de domínio. No entanto, os relatos e as associações feitas sobre esses grupos, muitas vezes são equivocados, sendo frequente a confusão entres os grupos, os tratando como um grupo homogêneo. Um fator a se destacar são as diferenças físicas entre os indivíduos de cada povo:
Pertenciam à raça pampeana; tinham estatura variável entre 1,76 m para os homens e 1,68 a 1,66 m para as mulheres. Eram de constituição física normal com algumas diferenças mercantes entre os grupos. Tinham os membros bem conformados, com pés e mãos relativamente pequenos. Dolicomorfos, de olhos amendoados, pretos e olhar penetrante; o nariz variava entre aquilino e levemente achatado. Eram de cor morena acentuada; cabelos lisos, pretos, não muito abundantes assim como a barba que era bastante rala. Os homens usavam o cabelo solto, ou preso ao redor da testa por uma tira de couro; as mulheres usavam-no em trança ou raramente solto. As diferenças físicas entre os dois grupos estavam na altura; os minuano eram alguns centímetros mais baixos e menos robustos que os Charrua. O dimorfismo sexual era acentuado, tendo as minuanas os seios mais volumosos que as charruas; a boca e olhos também maiores; os lábios mais grossos e o nariz mais achatado ( BECKER, 2006,p.135).

Havia, também, diferenças culturais:

Prosseguindo os relatos sobre as distinções destes grupos, vê se que haviam também significativas divergências culturais entres os mesmos quanto aos seus aspectos sociais. Entre os Minuano, as mulheres parecem ter tido maior igualdade perante aos homens de seu grupo do que as Charrua, existindo algumas que chegaram a exercer atividades médicas e ter a liberdade de beber nas cerimônias xamânicas com os homens, posição não permitida às Charrua. ( GARCIA; MILDER, 2012, p. 41).


No estado do Rio Grande do Sul, Charrua e Minuano estavam localizados nos campos do Sudeste e do Sudoeste, aproximadamente até a altura dos rios Ibicuí e Camaquã, estendendo-se para o território uruguaio e argentino, este último em pequena proporção. O contato com os conquistadores europeus obrigou os grupos indígenas a fazerem vários deslocamentos; Contudo, as posições originais dos primeiros séculos de ocupação ainda são bastante perceptíveis.  temperamento arredio e retraído, os grupos pampeanos geralmente são retratados como bons cavaleiros que, com suas boleadeiras, arcos e flechas, vagavam pelos campos caçando diversos animais para seu sustento. Apesar das inevitáveis transformações que ocorreram no cotidiano após o contato com os europeus, Charrua e Minuano não perderam a índole guerreira, cultivando ao longo do tempo o caráter de inconformidade diante da dominação europeia, o que contribuiu para o extermínio do grupo em meados do século XX. Garcia e Milder (2012) destacam que os contatos  dos Charrua com a Espanha e dos Minuano com Portugal, não significam a submissão ameríndia a estas coroas europeias, uma vez que houveram represálias constantes  por parte dos dois grupos.
De acordo com Becker (2002), a organização social, alicerçada na família, foi uma constante entre Charrua e Minuano até os momentos finais dos dois grupos. Mesmo com o contato com portugueses e espanhóis, algumas características iniciais, como a poligamia, mais frequente entre os Charrua, permaneceram. No que diz respeito à educação, nos grupos Charrua, a educação dos filhos era dirigida pelas inclinações individuais, assim como entre os Minuano, onde a educação também era responsabilidade dos pais. Em ambos os grupos, a família, que possivelmente era nuclear de linha paterna, constituída pelo casamento, absorvia os homens já em idade madura; Entre os Minuano, as mulheres casavam-se precocemente, e, assim como entre os Charrua,  estavam submissas ao maridos. Em relação ao filhos:
Os filhos entre os Charrua, aparentemente, eram criados pelos pais biológicos, enquanto entre os Minuano a educação das crianças costumava ser de responsabilidade dos pais até o período de lactância, e após esse momento, a responsabilidade de prosseguir a educação das crianças passava para algum familiar. Entre os Charrua era comum familiares ou outras pessoas se disponibilizarem a acolheros órfãos de seu grupo por meio de adoção. (BECKER apud GARCIA; MILDER, 2012, p.42).

            No entendimento de Becker (2002), o avanço da colonização efetiva acrescentou as culturas dos grupos nativos os produtos dessa colonização, dando aos indígenas uma gama de possibilidades, ainda que continuassem caçadores. Contudo, ocorreram mudanças na caça preferida, que passa a ser o gado; Muda também o transporte e vários hábitos. Assim, os grupos Charrua e Minuano tornaram-se pequenos criadores de equinos e bovinos, tanto para seu sustento como para o comércio por troca de bens coloniais com os europeus, de maneira que ambos os grupos foram se incorporando à economia colonial, mas não de forma intencional. Esta integração, por ter ocorrido de maneira forçada, é periférica, uma vez que os índios não conseguiram desenvolver uma economia nos moldes dos brancos.